Depois de muitas recomendações decidi assistir a famosa série da Netflix "Virgin River". Minha opinião? A série não é um café com biscoito numa tarde outonal; é álcool na ferida exposta.

Não, não é uma super-produção, não tem um enredo fora da curva, não apresenta efeitos especiais ultramodernos, nem tem atuações espetaculares. E é exatamente por isso que ela nos prende e cativa tanto: pela simplicidade. Pode parecer que não, em um mundo atualmente regido pelas aparências e ostentação, mas nossos cérebros se conectam com aquilo que nos soa legítimo, genuíno, familiar. Não adianta apresentar fotos fantásticas feitas por uma IA qualquer, achamos bonito, mas não nos desperta nada. E aqui é o ponto, Virgin River nos desperta muito. 

A série não me conforta, ela me confronta na verdade. Ela me chama na chincha, me faz olhar ao redor e ver que tipo de sociedade, de comunidade, de rotina estou inserida e se é realmente isso que eu continuo querendo para a minha vida. Hoje em dia, ir para Dubai andar de iate não me soa mais como um conto-de-fadas, hoje em dia, a utopia é desejar uma vida em uma Virgin River. 

A série tem como enredo central as conexões humanas. Com diálogos tão simples e por isso mesmo tão verdadeiros, que nos toca um lugarzinho esquecido lá no fundo do âmago: a nostalgia. A saudade IRREMEDIÁVEL de quando a vida era genuinamente menos complicada. Para os nascidos de 1980 pra cá, como eu, é impossível passar imune por Virgin River. Sinto saudade de quando saímos da escola e ficamos sentados na calçada com os amigos, sem almejar ser absolutamente nada além do que éramos. Sem a necessidade de performar, de parecer, de disputar, de ostentar qualquer coisa. Eu sabia os nomes dos meus vizinhos, eles podiam bater na minha casa que abriríamos a porta. Aliás, visitas eram esperadas e bem-vindas, costumávamos receber os vizinhos para assistir um programa na TV, os amigos para ouvir uma música ou estudar em conjunto. Hoje em dia? Minha filha de 15 anos nunca trouxe uma amiga da escola atual para dormir em casa. Eu conheço umas 2 colegas de sala dela. E não faço ideia se na porta da frente do corredor do meu andar mora um Nobel de medicina ou um sociopata fugitivo.

Virgin River escancara na nossa cara, sem dó nem piedade, a importância da COMUNIDADE. De se olhar nos olhos das pessoas, de se desprender um pouco dos próprios problemas para olhar para os das outras pessoas que nos cercam. Em um roteiro que me parece mais ficção do que guerra intergaláctica, a série tenta lembrar as pessoas de como o AMOR era bom. De como as amizades são vitais para a nossa boa sobrevivência na Terra, que nem tudo é sobre consumo o tempo inteiro, sobre hype, trands & afins. Talvez por isso adoeçamos tanto mentalmente hoje em dia.

Um mundo onde os celulares não são mais interessantes que os nossos próprios familiares, nem do que nossos parceiros. Onde as redes sociais não ocupam todo o nosso tempo "livre". Onde a natureza, o meio-ambiente, a paisagem, a vista da janela ao acordar pela manhã, o cheiro da grama molhada, nos faz sentir verdadeiramente vivos. Onde é possível tomar um café sem pressa e não desperdiçar 3 horas no trânsito enquanto bombeamos cortisol altíssimo para os nossos corações. 

Tá totalmente justificado o fênomeno da série e porque ela tem milhares de fãs apaixonados pelo mundo (podem me incluir na lista). Porque ela mostra uma época que conhecemos, que vivemos, mas que nunca mais existirá. Hoje, a simplicidade, a tranquilidade de Virgin River é mera utopia. 

Que pena...a raça humana não foi favorecida no "progresso". O preço que pagamos é altíssimo.